au revoir
Estava quente. Ela já podia olhar sem medo. O homem parado. O homem em noir. Não queria falar. Nem ele. Nem ela. Ele falava sem falar. Talvez por risco da timidez. Talvez por queda da insensatez. O sol ainda estava alto. O sol estava lá. Ela não tinha medo. Guardava uma alegria inexistente. Guardava uma lucidez implacável. Enquanto sorria. E ele estava lá. Ao seu lado. E os pássaros, era possível ouvi-los. E as flores. E tudo parecia estar realmente lá. Mas nada existia além dessa esperança branca. E um calor nas pálpebras. Pensava na dilatação das coisas. Sem pensar. Ela não pensava.
- Me espera, ele sussurrou.
Ela já partia. Sem querer ter para onde ir. Ele também não queria dizer.
- e para onde nós vamos?
Por que as coisas parecem tão leves quando não são? É o seu olhar.
- Eu não tenho nada para segurar.
- Segure esta flor.
Ela andava sem olhar pra trás. A cada passo realizava a cor de ses cabelos. Imaginava seu olhar, sua boca, seu olhar e sua boca. E nada disso importava. Eu preciso atravessar. Preciso atravessar o parque, ela se repetiu. Sem porquê.
- Por que?, ele gritou.
Eles não se conhecem. Ele e ela nunca vão se conhecer. Mesmo no absurdo do imprevisível, é preciso atravessar, ela pensou enquanto olhava para uma flor. Rosa e pálida. E como ela é viva e forte.
Ela voltou. E o abraçou. Um abraço cálido de quem se precisa sem saber. É o grande mistério, ela pensou. Quando é que eu quero mesmo estar sozinha? Não pense, não pense. Não fale, por favor. A mão dele nos cabelos dela, entrando suavemente na sua nuca. Um afago. Ela fecha os olhos. Ela não pode vê-lo. Ela gira o tronco, levando uma mão ao rosto. Um afago invisível. Instante que não pode durar. Eu queria fazer uma homenagem a tudo que eu não tenho e a tudo que eu não quero ter. Estou me misturando.
- Veja como eu faço isso bem, mostrando-lhe a face de olhos fechados.
- Mas você não sabe e nem vai saber. Permaneço misturando.
Ela ri. E o olha como se ele fosse puro de alguma pureza da qual ela não pudesse se adivinhar. Apenas entender.
- Mas por favor não me desminta. Eu não poderei acreditar.
eu não poderei acreditar. Não me fale de sofrimento. É de sofrer. Não me fale. Mas eu não posso dizer.
Ele canta uma canção. E agora ela abre os olhos. Não cante para mim. O sol ainda está lá. E começa a esfriar. Os dias são longos. Tento permanecer. Estou sempre tentando permanecer.
Comentários
Tenho sentido saudades de nossos encontros ainda na Expedição Corpo. Como estão as coisas por aí? Por aqui, estão fluindo: vou fazer parte de outra residência do Panorama e consegui espaço p/ensaio no Centro Coreográfico. Tô feliz, mas sabe qdo vc corre tanto atrás das coisas e qdo elas meio q acontecem vc fica "e agora, por onde eu começo"? E o fato é q já comecei tantos começos... Bjks!
Estou para te mandar umas fotos que eu acho que vc vai gostar de ver, mas tenho que escanear, sabe como eu sou com foto, né. Mas vou te mandar, já.
bejos!